Opinião

Portugal vive mais, mas vive pior: o paradoxo revelado pelo mais recente relatório da OCDE

Portugal vive mais, mas vive pior: o paradoxo revelado pelo mais recente relatório da OCDE

Pedro Serra Pinto

Presidente do Fórum Saúde XXI

relatório Health at a Glance 2025, divulgado na passada semana pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), pinta um retrato tão surpreendente quanto inquietante da saúde em Portugal. O país surge como um caso típico de “paradoxo epidemiológico”: consegue uma das esperanças de vida mais elevadas da Europa, mas apresenta desempenhos fracos em qualidade de vida, bem-estar e capacidade funcional, especialmente entre as populações mais velhas e com doenças crónicas.

Os dados não são novos, mas ganham agora uma nitidez particular quando se cruzam três dimensões fundamentais analisadas pela OCDE — estado de saúde, despesas em saúde e força de trabalho em saúde. O resultado é claro: Portugal vive muito…, mas vive pior do que seria expectável.

Um país que sobrevive bem, mas não vive bem

Comecemos pelo lado positivo. Portugal continua a destacar-se nos indicadores de sobrevivência:

  • Esperança de vida elevada, próxima da de países como Itália ou Espanha.
  • Mortalidade evitável em níveis adequados ao volume de despesa — ainda distante dos campeões europeus, mas longe dos piores.

Mas este sucesso convive com um conjunto de fragilidades profundas. Segundo o relatório, os portugueses:

  • Avaliam o seu estado de saúde como pior do que a média da OCDE.
  • Expressam níveis particularmente altos de limitações funcionais após os 65 anos — comparáveis aos do Japão ou Lituânia.
  • Entre pessoas com doenças crónicas, revelam uma das piores perceções de saúde e funcionamento social entre todos os países analisados.

Resumindo: Portugal é muito eficaz a evitar que as pessoas morram cedo, mas é muito menos eficaz a garantir que vivam bem, com autonomia e qualidade de vida.

Despesas moderadas e famílias demasiado expostas

A estrutura de financiamento ajuda a explicar esta dicotomia. Portugal dedica uma percentagem do PIB à saúde semelhante ou ligeiramente acima da média da OCDE — mas como o PIB per capita é mais baixo, gasta menos por pessoa do que os seus pares da europa ocidental e do sul.

Esta restrição financeira tem impactos diretos:

  • Dificulta o reforço de equipas multidisciplinares, essenciais para gerir doentes crónicos.
  • Compromete o investimento em cuidados comunitários, reabilitação e cuidados de longa duração.
  • Limita a renovação tecnológica e a expansão de serviços inovadores.

Ao mesmo tempo, apenas 60% da despesa em saúde é pública, quando a média da OCDE ronda os 75%. Na prática, as famílias portuguesas pagam mais do seu bolso — o que gera atrasos no acesso, menor equidade e descompensações que se agravam silenciosamente até chegarem aos hospitais ou urgências.

A esta equação junta-se outro problema estrutural: Portugal é um dos países que menos investe em prevenção, com 2,3% da despesa total em saúde — contra 3,4% no conjunto da OCDE. Menos prevenção significa diagnósticos mais tardios, gestão menos eficaz de doenças crónicas e maior probabilidade de perda funcional nos idosos.

Força de trabalho desequilibrada: muitos médicos, poucos enfermeiros

A peça central deste puzzle, porém, está na força de trabalho em saúde. O relatório da OCDE volta a sublinhar uma característica muito portuguesa: o país tem muitos médicos e poucos enfermeiros. Com mais de 5 médicos por 1.000 habitantes, Portugal está acima de quase toda a OCDE. Mas ao nível da enfermagem, o cenário é oposto: a densidade é abaixo da média, e muito longe de sistemas de saúde como os da Suíça, Finlândia ou Noruega. Os salários mais baixos dificultam a retenção e a atração de novos profissionais, agravando o desequilíbrio.

Esta assimetria tem consequências práticas:

  • Cuidados demasiado medicalizados, com pouca intervenção de enfermagem e reabilitação.
  • Equipas de cuidados primários a operar no limite, com recursos insuficientes para gerir a multimorbilidade.
  • Falta de capacidade nos cuidados continuados e cuidados de longa duração, altamente dependentes de enfermeiros e assistentes sociais.

Maior dependência dos hospitais e menor orientação para modelos comunitários.

No fundo, o país garante bons “atos médicos”, mas falha no apoio diário, na continuidade e na promoção da funcionalidade — dimensões críticas numa população envelhecida.

O paradoxo português faz sentido (infelizmente)

Quando se articula o estado de saúde, a despesa e a força de trabalho, o panorama torna-se coerente:

  • A expectativa de vida é alta porque há muitos médicos, boa capacidade hospitalar e um legado forte de cuidados primários.
  • A saúde percebida é baixa porque há poucos enfermeiros, pouca prevenção, fraca coordenação e recursos insuficientes para apoiar a funcionalidade.
  • O sistema é ineficiente porque está desequilibrado: investe bem em sobrevivência, mas mal em qualidade de vida.

E agora? O que realmente falta fazer

O relatório da OCDE não deixa dúvidas: o problema de Portugal não é apenas quanto gasta, mas como gasta.

As prioridades são claras:
  • Reforçar a enfermagem e reequilibrar a força de trabalho.
  • Expandir cuidados preventivos, comunitários e de reabilitação.
  • Investir seriamente em cuidados de longa duração.
  • Aumentar a participação pública no financiamento, reduzindo a carga sobre as famílias.
  • Aproximar o investimento em prevenção dos padrões da OCDE.

Portugal já conquistou o desafio de uma longa vida (Lifespan). Agora precisa de acrescentar a qualidade de vida (Healthspan). Se não reformarmos e reorientarmos o sistema, continuaremos a viver muitos anos — mas anos vividos com mais doença, mais limitação e mais dependência. E esse não é o futuro que um país envelhecido pode dar-se ao luxo de aceitar.

Artigo publicado no jornal Observador em 28 de novembro de 2025

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