Andrea Lima
Presidente do Fórum Saúde XXI
Em Portugal, vivemos num permanente espetáculo de ilusionismo político. Os protagonistas não usam cartolas nem cartas, mas dominam como ninguém a arte de nos fazer acreditar que algo está a acontecer… quando, na verdade, tudo continua exatamente na mesma.
A cada ciclo eleitoral, os discursos renovam-se: fala-se de reformas estruturais, de cortes nas gorduras do Estado, de investimentos na saúde, de justiça para os professores, de dignidade no trabalho e de políticas migratórias coerentes. Ouvimos palavras grandes: “mudança”, “visão”, “transformação”. Mas passadas as promessas, quando o pano sobe e os holofotes se apagam, a realidade volta a instalar-se — pesada, repetitiva, sem magia. Prometem-nos ação, mas entregam-nos adiamento.
Veja-se o caso dos incêndios. Todos os verões, Portugal arde. Arde o interior esquecido, ardem as matas sem ordenamento, ardem as vidas de quem insiste em resistir no campo. Os relatórios sucedem-se, os minutos de silêncio também, mas ano após ano, pouco muda. Os aviões chegam tarde, os bombeiros continuam mal pagos, e a floresta continua ao abandono. Ilusão de ação, realidade de inércia.
Na saúde, o desafio é grande, mas a oportunidade de mudança também. Fala-se em reforçar o SNS, em contratar profissionais, em melhorar o acesso às urgências. Mas, na prática, muitos utentes continuam a enfrentar longas esperas por consultas e tratamentos, e os serviços de urgência sentem dificuldades em garantir uma resposta plena, devido à escassez de recursos humanos. É essencial investir de forma estratégica na valorização das equipas de saúde, criar melhores condições de trabalho e atrair talento com políticas estáveis e motivadoras. O potencial do nosso sistema é imenso — falta agora transformar as intenções em medidas concretas e sustentáveis.
Mas é fundamental ir além da gestão corrente: é urgente reformar profundamente o sistema de saúde. O Serviço Nacional de Saúde foi desenhado para uma realidade populacional e epidemiológica que já não existe. Hoje, temos uma população mais envelhecida, doenças crónicas mais prevalentes e uma tecnologia médica que evoluiu imensamente. Não adianta continuar a investir num modelo ultrapassado: é necessário inovar, modernizar os serviços e usar a tecnologia de forma inteligente, preventiva e integrada.
A educação exige uma urgência semelhante. Estamos a formar os alunos do século XXI com métodos do século XIX. Os currículos estão desfasados da realidade atual, e continuamos a dar aulas como na altura dos nossos avós. A escola precisa de ser repensada de raiz: mais interdisciplinar, mais prática, mais próxima das competências que o mundo exige — pensamento crítico, literacia digital, criatividade, empatia. Reformas estruturais são inevitáveis se quisermos preparar os jovens para enfrentar desafios reais.
E quanto à imigração? De um lado, ouvimos apelos à integração e à valorização da diversidade. Do outro, assistimos a uma completa desorganização administrativa, à falta de políticas sérias e estruturadas para acolher quem chega, e à degradação de condições básicas de vida para milhares de pessoas. Mais uma vez: discursos bonitos, mas sem consequência prática.
Por detrás desta ilusão coletiva está um problema mais profundo: Portugal vive sem foco, sem objetivos estruturantes, sem uma verdadeira visão de futuro. Gastam-se milhões — em fundos europeus, programas, iniciativas — mas quase sempre sem um plano coerente, sem metas claras, sem saber onde queremos estar daqui a 10, 20 ou 30 anos. Falta-nos um projeto de país. Falta-nos ambição. As decisões são tomadas ao sabor da conveniência política, sem continuidade, sem estratégia.
É urgente adaptar as leis e o Estado às necessidades e à realidade de agora. Estamos amarrados a uma Constituição e a um sistema legislativo moldados para os desafios do século passado. Hoje vivemos numa era de transformação digital, de inteligência artificial, de mobilidade global e desafios climáticos urgentes. A digitalização podia e devia ser uma alavanca para o Estado ser mais eficiente, mais transparente e mais próximo das pessoas. Mas continua a ser vista como uma moda, e não como uma prioridade estrutural.
Como é possível não aproveitarmos verdadeiramente a nossa zona económica exclusiva — uma das maiores da Europa? Como é possível continuarmos virados para dentro, como se o Atlântico não estivesse às nossas portas? Historicamente, Portugal só foi relevante quando se voltou para o mar. A nossa força nunca foi o tamanho, mas a ousadia de olhar para fora. Hoje, somos um país periférico que insiste em pensar pequeno. Usamos ainda a bitola ibérica nas ferrovias, enquanto o resto da Europa avança com interoperabilidade. É simbólico: insistimos em ser exceção, quando deveríamos querer ser ligação.
Os nossos políticos enchem a boca para dizer que “lá fora damos cartas”, que somos um “exemplo de democracia”, “campeões da diplomacia”. Mas basta olhar de forma honesta para perceber que somos iguais a muitos, e às vezes até menos eficazes. O que acontece lá fora é que o ambiente é mais propício para evoluir: leis atualizadas, decisões rápidas, Estados ágeis. Não é que sejamos piores; simplesmente criámos um sistema onde tudo leva tempo demais, onde ninguém arrisca, onde todos falam e ninguém faz.
Este é o grande problema: os nossos líderes vivem da encenação. Dizem defender uma coisa e o seu contrário, sem pudor nem consequências. Apresentam-se como reformistas, mas agem como burocratas do adiamento. Portugal precisa desesperadamente de coragem política — para romper com os ciclos de improviso, para investir no longo prazo, para enfrentar interesses instalados, para escolher entre o que é popular e o que é necessário.
A falta de ação não é neutra. Tem custos. Custos em vidas, em oportunidades perdidas, em talento que emigra, em regiões que morrem lentamente. Esta paralisia está a empurrar-nos, silenciosamente, para a irrelevância. Como país, vamos perdendo peso, influência, autoestima. Tornamo-nos especialistas em prometer e em falhar.
Enquanto os ilusionistas continuarem em palco, com os seus discursos treinados e a sua arte de disfarçar a inação, Portugal continuará refém de um futuro que nunca chega. E o mais trágico de tudo? É que, de tanto ver o truque repetido, já quase deixámos de acreditar que a política pode ser diferente.
Artigo publicado no jornal Observador em 9 de agosto de 2025
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