Opinião

Portugal, bem me quer mal me quer

Portugal, bem me quer mal me quer

Andrea Lima

Presidente do Fórum Saúde XXI

Portugal é frequentemente descrito lá fora como um pequeno paraíso na Europa. O nosso clima, moderado durante todo o ano, a proximidade do mar, a riqueza cultural, a segurança e até o custo de vida relativamente acessível fazem com que muitos estrangeiros considerem Portugal um destino privilegiado para viver, investir ou simplesmente desfrutar da reforma. Cidades como Lisboa e Porto estão na moda, o Algarve continua a atrair milhares de visitantes, e mesmo regiões menos centrais ganham cada vez mais atenção internacional.

Mas, curiosamente, enquanto somos alvo de elogios vindos de fora, internamente vivemos mergulhados numa constante espiral de crítica e pessimismo. Os portugueses, mais do que reconhecer as virtudes do país, parecem concentrar-se sobretudo nos defeitos. Porém, é importante dizer com clareza: a culpa não é dos cidadãos. Esta visão negativa resulta de fatores bem concretos.

Durante décadas, os portugueses têm sentido na pele uma carga fiscal elevada que muitas vezes não encontra correspondência nos serviços públicos. Paga-se muito e espera-se muito, mas a resposta é frequentemente aquém das expectativas, seja na saúde, na justiça ou nos transportes. A isto soma-se um quotidiano mediático e político marcado por mensagens destrutivas, por notícias de escândalos e por debates reduzidos a insultos e acusações. Assim, não admira que a perceção geral seja de que o país está sempre “péssimo”. Tudo isto está interligado: quando se vive dentro deste ambiente, torna-se quase impossível ver a imagem completa, aquela que quem está de fora consegue observar sem o mesmo enviesamento.

Este contraste entre a forma como somos vistos e como nos vemos é ainda mais evidente em períodos eleitorais. Dentro de pouco tempo, teremos dois momentos decisivos: as eleições autárquicas e as eleições presidenciais. Seria natural esperar que estas ocasiões fossem oportunidades para discutir soluções, apresentar projetos inovadores e demonstrar visão estratégica, tanto para as regiões como para o país. Contudo, basta ligar a televisão ou acompanhar os jornais para perceber que a lógica predominante é outra: em vez de propostas construtivas, temos debates cheios de ataques pessoais, acusações e suspeições.

O discurso político tornou-se um campo de batalha onde a prioridade parece ser destruir o adversário, e não construir algo de útil para os cidadãos. Casos de corrupção, ainda que relevantes, dominam a narrativa e servem como armas de arremesso. Projetos que poderiam beneficiar populações inteiras são postos em causa apenas porque foram promovidos pelo partido contrário. Esta cultura do “bota-abaixo” não só gera desconfiança generalizada, como também desencoraja aqueles que genuinamente querem servir e contribuir.

Quem ousa apresentar ideias inovadoras ou tomar decisões difíceis em nome do bem comum arrisca-se a ser imediatamente atacado. Em vez de discutir o mérito ou a utilidade das propostas, discute-se a cor partidária de quem as apresenta. Em vez de reconhecer a complexidade das decisões, prefere-se simplificar tudo ao extremo, rotulando quem governa como incompetente ou corrupto. Esta dinâmica é profundamente paralisante.

Se queremos que Portugal progrida, precisamos urgentemente de inverter este ciclo. É necessário resgatar o espírito de comunidade e o sentido de responsabilidade coletiva. Os cargos públicos não podem ser encarados como trampolins para carreiras pessoais ou como arenas para disputas de vaidade. O verdadeiro propósito de se candidatar a uma câmara municipal, a uma assembleia ou à presidência deve ser servir a população, defender o interesse público e pensar além dos limites imediatos do poder.

Mas para algo de bom acontecer é preciso dar um primeiro passo essencial: acreditar. Nenhuma transformação coletiva ou individual se faz a partir do cinismo ou da descrença. Acreditar que Portugal pode ser melhor, que pode oferecer mais oportunidades, que pode superar os seus problemas, é o ponto de partida para qualquer mudança real. Depois de acreditar, é necessário apostar na concretização desse futuro desejado. Não basta sonhar ou esperar; é preciso investir energia, tempo, compromisso e coragem. Só assim conseguimos transformar visões em realidades.

Portugal tem defeitos, é verdade. Temos problemas estruturais na economia, desigualdades sociais persistentes e uma justiça lenta que mina a confiança dos cidadãos. Mas também temos qualidades extraordinárias: somos um dos países mais seguros do mundo, temos um sistema de saúde público que, apesar das falhas, garante acesso universal, e possuímos um património cultural e natural invejável. Basta olhar para a forma como milhões de estrangeiros nos escolhem todos os anos para perceber que não somos o país falhado que tantas vezes acreditamos ser.

O que falta, talvez, é essa mudança de mentalidade: acreditar primeiro e depois apostar na realização do futuro que desejamos. Mas, acima de tudo, é preciso coragem de quem decide. A responsabilidade de inverter este ciclo não está nos cidadãos — que já carregam o peso das dificuldades diárias — mas sim nos líderes que ocupam cargos de decisão. São eles que têm de ter a visão, a coragem e a honestidade para tomar as medidas necessárias, mesmo que sejam difíceis ou impopulares.

Se os de fora reconhecem em Portugal um país onde vale a pena viver, investir e criar raízes, porque não havemos nós, portugueses, de acreditar no mesmo? A verdade é que Portugal “bem nos quer”. O problema é que, muitas vezes, somos nós próprios a insistir em “mal o querer”, influenciados por quem governa mal ou por quem não tem coragem de governar. Se deixarmos de lado o cinismo e abraçarmos uma visão mais positiva e cooperante — acreditando primeiro e apostando depois — poderemos finalmente alinhar a perceção interna com a imagem que o mundo já tem de nós.

E talvez aí, sim, possamos dizer com orgulho que Portugal é um país onde vale a pena acreditar.

Artigo publicado no jornal Observador em 21 de setembro de 2025

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