Pedro Serra Pinto
Fundador e Diretor Executivo do Fórum Saúde XXI
Portugal está entre os países mais envelhecidos da Europa e continua a agir como se isso fosse apenas um tema de segurança social.
Segundo a PORDATA, o índice de envelhecimento ultrapassa já os 190 idosos por cada 100 jovens. Em 2000 era pouco mais de 100. Hoje, quase um quarto da população portuguesa tem 65 ou mais anos. A pirâmide etária não está a mudar. Já mudou.
Mas o verdadeiro problema não é demográfico. É estratégico.
Vivemos mais — mas não necessariamente melhor
Vivemos mais anos. A questão é como os vivemos.
A OCDE mostra que, em média, cerca de 25% dos anos após os 60 são vividos com incapacidade. A diferença entre esperança de vida e esperança de vida saudável tem aumentado. Isto significa que uma parte relevante do prolongamento da vida corresponde a anos com limitações funcionais, dependência e maior consumo de cuidados de saúde.
Em Portugal, a esperança de vida aos 65 anos ronda os 20 anos adicionais. O que raramente se discute é quantos desses anos são vividos com autonomia plena.
A Direção-Geral da Saúde confirma o peso crescente da doença crónica. Doenças cardiovasculares, diabetes, doença respiratória crónica e demência concentram grande parte da despesa hospitalar e dos cuidados continuados.
O envelhecimento não está apenas a produzir mais anos de vida. Está a aumentar o número de anos vividos com doença e dependência.
O erro estrutural: reagimos mais do que prevenimos
Continuamos a investir sobretudo na resposta e muito pouco na prevenção.
A OCDE é clara: os países gastam apenas cerca de 3% da despesa total em saúde em prevenção. Portugal não é exceção.
Mais de 90% do orçamento concentra-se na prestação de cuidados — hospitais, tratamentos, institucionalização. Uma fração reduzida é dirigida a atrasar a doença, preservar funcionalidade ou evitar perda de autonomia.
No entanto, o mesmo relatório demonstra que um aumento de 10% no investimento em prevenção pode reduzir significativamente a prevalência de doenças crónicas e gerar poupança num horizonte de cinco anos.
Isto não é uma discussão ideológica sobre maior ou menor intervenção pública. É uma questão de eficiência económica. Prevenir é estruturalmente mais barato do que tratar.
Menos ativos, mais dependência
O impacto não é apenas clínico. É macroeconómico.
Portugal enfrenta simultaneamente três movimentos:
— Redução da população em idade ativa
— Aumento acelerado da população idosa
— Crescente despesa em saúde e cuidados continuados
A OCDE projeta que, nas economias envelhecidas, o rácio de dependência poderá ultrapassar 50 idosos por cada 100 pessoas em idade ativa até 2060 — sendo expectável que Portugal supere essa média. Paralelamente, o crescimento do PIB per capita poderá desacelerar significativamente se produtividade e participação não aumentarem.
Envelhecimento mal gerido significa menor crescimento potencial e maior pressão estrutural sobre as finanças públicas.
Portugal já tem um crescimento estrutural baixo. Com esta trajetória demográfica, a margem orçamental tenderá a encolher.
Sem uma estratégia para prolongar anos de vida saudável e manter pessoas ativas por mais tempo, o envelhecimento transforma-se num multiplicador de despesa pública.
A economia da longevidade: a oportunidade ignorada
O debate nacional continua centrado em pensões e lares.
Mas a longevidade é também um setor económico emergente.
— Habitação adaptada e requalificação urbana.
— Tecnologia e monitorização remota.
— Reabilitação funcional.
— Cuidados domiciliários integrados.
— Formação especializada em geriatria e cuidados comunitários.
A OCDE mostra que menos de 20% das habitações estão adaptadas para mobilidade e independência e que o reforço dos cuidados domiciliários pode reduzir a despesa global em cuidados de longa duração.
Investir na autonomia custa menos do que financiar institucionalização.
Cada ano adicional vivido com autonomia reduz pressão hospitalar, mantém capacidade contributiva e diminui necessidade de apoio formal. Não é apenas uma questão social. É produtividade, crescimento e sustentabilidade orçamental.
Uma escolha política com consequências económicas
O verdadeiro risco não é termos mais idosos.
É termos mais anos de doença do que de saúde.
Mais dependência do que participação.
Mais despesa reativa do que investimento estrutural.
Continuar a expandir camas hospitalares sem investir seriamente em prevenção, reabilitação e adaptação comunitária é financeiramente insustentável.
A questão não é se o país consegue pagar o envelhecimento.
É se consegue pagar a ausência de estratégia.
A longevidade pode ser um custo acumulado.
Ou pode ser o maior investimento coletivo das próximas décadas.
A decisão é política. Mas as consequências serão económicas.

