O envelhecimento não é um problema, é uma oportunidade

Andrea Lima defende prevenção, modernização do SNS e políticas de saúde sustentáveis para melhorar a longevidade e bem-estar em Portugal.
O envelhecimento não é um problema, é uma oportunidade

A presidente e fundadora do Fórum Saúde XXI, Andrea Lima, participou no podcast “Conversas com CEO”, uma iniciativa integrada no projeto Negócios Sustentabilidade 2030, do Jornal de Negócios, conduzida pela jornalista Helena Garrido.

Ao longo da conversa, abordou alguns dos principais desafios do setor da saúde em Portugal, desde a escassez de profissionais e os problemas de gestão até ao envelhecimento da população, à sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e à necessidade de ultrapassar os interesses particulares que dificultam a realização de reformas.

Numa conversa sobre o futuro da saúde em Portugal, Andrea Lima defendeu que a sustentabilidade do sistema não dependerá apenas da capacidade de tratar a doença. Exigirá, sobretudo, uma aposta continuada na prevenção, na promoção da saúde e na criação de condições que permitam aos cidadãos viver mais anos com qualidade de vida.

Para a presidente do Fórum Saúde XXI, o envelhecimento não deve ser encarado como um problema, mas como uma das maiores conquistas da sociedade. Transformar essa conquista numa verdadeira oportunidade implica, no entanto, reduzir a carga de doença crónica e adiar o aparecimento de problemas de saúde.

Esta mudança exige uma visão de longo prazo, que ultrapasse os ciclos políticos. Os resultados das políticas preventivas raramente são imediatos e podem demorar vários anos a tornar-se visíveis. Por essa razão, Andrea Lima considera essencial a existência de compromissos duradouros entre os partidos com responsabilidades governativas.

“O investimento em prevenção e em promoção da saúde é um dos maiores investimentos que podemos fazer na economia”, afirmou.

Um sistema preparado para uma nova realidade

O Serviço Nacional de Saúde continua a ser, para Andrea Lima, uma das maiores conquistas da democracia portuguesa. A sua estrutura, contudo, não evoluiu ao mesmo ritmo que a sociedade.

O SNS foi criado num país com uma população mais jovem, uma natalidade mais elevada e uma esperança de vida inferior à atual. Hoje, enfrenta novas necessidades assistenciais, uma maior prevalência de doenças crónicas e dificuldades relacionadas tanto com a escassez de profissionais como com a gestão das organizações.

Na entrevista, Andrea Lima defendeu que estes dois problemas estão interligados. O sistema precisa de recursos, mas também de se tornar mais ágil, moderno e adaptado às atuais necessidades da população.

A resposta não deverá passar por soluções isoladas ou por uma competição entre diferentes setores. Para a presidente do Fórum Saúde XXI, é necessário pensar o sistema de saúde como um todo, reforçando a articulação entre o Serviço Nacional de Saúde e os setores privado e social, com responsabilidades claras, complementaridade e transparência.

A saúde começa antes da entrada no hospital

A promoção da saúde também não pode ficar limitada aos hospitais, centros de saúde ou profissionais do setor. As condições em que as pessoas nascem, vivem e trabalham, têm um impacto direto no seu estado de saúde.

Andrea Lima deu como exemplo uma pessoa idosa que recebe alta hospitalar depois de ser tratada a uma pneumonia, mas regressa pouco tempo depois por viver numa habitação sem isolamento térmico ou condições adequadas de aquecimento.

O tratamento pode ter sido clinicamente bem-sucedido, mas a recuperação fica comprometida pelas condições sociais e habitacionais do doente.

Este exemplo demonstra por que razão o Fórum Saúde XXI envolve organizações de áreas aparentemente afastadas da prestação de cuidados, incluindo empresas do setor da construção. A saúde também se constrói nas habitações, nas escolas, nas empresas, nas cidades e nas decisões tomadas por toda a sociedade.

Colocar todos à mesma mesa

Esta visão transversal está na origem do Fórum Saúde XXI. Andrea Lima recordou que a organização nasceu num período em que os diferentes intervenientes do setor defendiam as suas próprias agendas, mas não dispunham de um espaço independente onde pudessem dialogar.

Ordens profissionais, sociedades científicas, associações de doentes, empresas, profissionais e decisores políticos encontravam-se organizados em estruturas próprias, frequentemente sem comunicação entre si.

Foi para responder a essa fragmentação que se realizou, em 2014, a primeira reunião do Fórum Saúde XXI, com o objetivo de “quebrar os silos e pôr na mesma mesa decisores políticos, profissionais de saúde, empresas e o próprio cidadão”.

Mais de uma década depois, a organização reúne mais de 500 membros de diferentes áreas. Através de reuniões, documentos e eventos, procura aproximar posições, construir consensos e contribuir para políticas públicas mais eficazes.

O trabalho desenvolvido pelo Fórum Saúde XXI parte de uma ideia comum a toda a entrevista: a saúde é demasiado complexa para ser pensada a partir de uma única perspetiva. A construção de um sistema mais sustentável exige diálogo, continuidade nas políticas e a participação de toda a sociedade, com o cidadão no centro das decisões.

Oiça aqui a conversa completa.

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