Opinião

A epidemia dos ecrãs: como proteger os olhos numa era digital

A epidemia dos ecrãs: como proteger os olhos numa era digital

Dr. Rufino Silva

Médico Oftalmologista da ULS de Coimbra

Nunca passámos tantas horas a olhar para ecrãs como hoje. Computadores, smartphones e tablets tornaram-se ferramentas indispensáveis para trabalhar, estudar, comunicar e até descansar. Este uso intensivo tem, no entanto, um custo silencioso: a chamada síndrome da visão do computador, um conjunto de sintomas que inclui fadiga ocular, ardor, visão turva, dores de cabeça e sensação de olho seco. Não se trata de um problema menor nem passageiro — é, de facto, uma epidemia ocular do século XXI.

Sabemos que uma grande maioria dos utilizadores de dispositivos digitais apresenta algum grau de desconforto visual após uso prolongado. O problema não está apenas no tempo de exposição, mas sobretudo na forma como usamos os ecrãs: distância inadequada, postura incorreta, esforço excessivo de acomodação e, muito frequentemente, uma correção visual mal ajustada às exigências do trabalho digital.

Mas será esta síndrome inevitável?

A resposta é clara: não. A síndrome do computador raramente resulta apenas do “uso excessivo de ecrãs”. Na maioria dos casos, existe um problema ocular subjacente que agrava os sintomas. Entre os mais comuns encontram-se a necessidade de correção ótica não diagnosticada ou inadequada, olho seco, inflamação palpebral, alterações da visão binocular, problemas de acomodação, conjuntivite alérgica persistente ou outras patologias que interferem com a qualidade da visão.

Ver bem não é o mesmo que ver corretamente ao computador

Uma ideia muito comum — e errada — é a de que “ver bem ao longe” significa ter a visão adequada para todas as tarefas. O trabalho com ecrãs ocorre a distâncias específicas: geralmente entre 50 e 70 cm nos computadores de secretária e portáteis, e entre 30 e 40 cm em smartphones e tablets.

Se a correção ótica não estiver adaptada a estas distâncias, os olhos são obrigados a um esforço contínuo, que rapidamente se traduz em sintomas. A evidência científica é clara: a correção adequada à idade e à distância de trabalho é fundamental para prevenir fadiga ocular e olho seco em utilizadores de ecrãs.

Isto aplica-se a todas as situações refrativas — miopia, hipermetropia, astigmatismo e presbiopia — e não apenas a quem “vê mal”. Mesmo adultos jovens e pré-presbíopes, com boa visão para longe, podem beneficiar de pequenas correções que reduzem significativamente o esforço acomodativo durante o trabalho digital. Nos presbíopes (geralmente a partir dos 40–45 anos), a escolha do tipo de lente torna-se ainda mais crítica.

Nem todas as lentes são iguais

Para quem já necessita de óculos para perto, existem várias opções: lentes progressivas convencionaislentes ocupacionais (ou progressivas para computador) e lentes monofocais para perto. A escolha não deve basear-se apenas no conforto geral, mas sobretudo no tipo de tarefas realizadas e na distância habitual dos ecrãs.

As lentes progressivas convencionais foram desenhadas para permitir visão ao longe, intermédia e de perto, mas a sua zona intermédia — essencial para o computador — é relativamente limitada. Para quem passa muitas horas em frente a um computador de secretária, isto pode obrigar a posturas compensatórias do pescoço e aumentar a fadiga visual.

Nestes casos, as lentes ocupacionais mostram-se superiores na redução dos sintomas da síndrome visual do computador em presbíopes, sobretudo em uso prolongado. Estas lentes facilitam o foco natural à distância típica de trabalho (50–70 cm), reduzindo o esforço ocular e o desconforto. Já quando a distância de trabalho é mais curta, entre 30 e 40 cm, as lentes monofocais para perto podem ser a opção mais adequada.

Ergonomia: o monitor também tem de ajudar

A correção visual, por si só, não é suficiente. A ergonomia do posto de trabalho desempenha um papel fundamental.  Colocar o monitor à altura dos olhos pode ser,  só por si, causa de dores cervicais, cefaleias e agravar o olho seco. De facto, a altura correta do monitor deve ser ajustada de acordo com o tipo de lentes utilizadas, porque cada lente obriga a uma zona específica de visão — olhar reto, ligeiramente para baixo ou mais acentuadamente para baixo. Um ajuste inadequado pode causar fadiga visual, dor cervical e cefaleias.

A regra geral é simples, mas frequentemente ignorada: o ecrã deve estar ligeiramente abaixo do nível dos olhos e à distância correta — 50 a 70 cm para computadores e 30 a 40 cm para dispositivos móveis. Quando esta relação entre óculos e ergonomia não é respeitada, até a melhor prescrição pode falhar. Pelo contrário, quando correção visual e posicionamento trabalham em conjunto, os sintomas reduzem-se de forma significativa. Ergonomia ocular não é, pois, uma regra única — é uma adaptação individual.

Uma prevenção simples, mas pouco valorizada

A síndrome visual do computador não é inevitável. Na maioria dos casos, não exige tratamentos complexos, mas sim uma abordagem integrada:

  • avaliação visual regular com o médico oftalmologista e tratamento das situações patológicas de base
  • prescrição personalizada para a distância de trabalho;
  • ajustes ergonómicos simples.

Num mundo cada vez mais digital, proteger os olhos deve ser encarado como uma questão de saúde pública. Ver confortavelmente não é um luxo — é uma necessidade para trabalhar melhor, viver melhor e envelhecer com mais qualidade visual.

A epidemia dos ecrãs não vai desaparecer. Mas com informação, prevenção e escolhas corretas, os seus efeitos podem — e devem — ser minimizados. O seu médico oftalmologista pode identificar o problema, tratar as suas causas e otimizar a qualidade da sua visão.

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