
Pessoas • Implementação • Equidade • Evidência • Futuro
A obesidade constitui um dos maiores desafios sociais, clínicos, económicos e de saúde pública do nosso tempo.
Em Portugal, estima-se que mais de 2 milhões de adultos vivam com obesidade (28,7%) e que aproximadamente dois terços da população apresentem pré-obesidade ou obesidade (68,7%). Esta realidade tem impacto crescente na qualidade de vida e no bem-estar das pessoas e das comunidades, na carga de doença, na sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS), na produtividade e na economia.
A obesidade é uma doença crónica complexa e multifatorial, clinicamente relevante e com múltiplas consequências para a saúde dos portugueses. A sua prevenção, diagnóstico, acompanhamento e tratamento devem, por isso, constituir uma prioridade de saúde, sem ignorar os determinantes sociais, económicos, ambientais e comportamentais que contribuem para o seu desenvolvimento e evolução.
Nos últimos anos, Portugal deu passos importantes no reconhecimento e na organização da resposta à obesidade. A criação e desenvolvimento de instrumentos estratégicos como o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, o Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade, o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade e, mais recentemente, o Roteiro de Ação para Acelerar a Prevenção e Controlo da Obesidade em Portugal, alinhado com o Plano de Aceleração da OMS para Tratar a Obesidade e com as metas do Plano Nacional de Saúde 2030, representam avanços relevantes na definição de uma resposta estruturada.
Portugal dispõe hoje de orientação estratégica, conhecimento científico, capacidade técnica e crescente mobilização institucional.
O desafio é agora: transformar estratégia em ação efetiva, consistente, equitativa e sustentável, com impacto real na vida das pessoas.
A obesidade não pode continuar a ser enfrentada através de respostas fragmentadas, isoladas ou limitadas a projetos-piloto que não chegam a ganhar escala.
O conhecimento existe.
A evidência existe.
A inovação existe.
As soluções existem.
É tempo de implementar.
Dez compromissos para ação
integrada na obesidade
A obesidade exige uma resposta clínica integrada e uma abordagem transversal
A obesidade é uma doença clinicamente significativa, complexa e multifatorial, que exige prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequados ao longo do ciclo de vida.
Ao mesmo tempo, os seus determinantes e consequências ultrapassam o setor da saúde. A obesidade é também uma questão social, económica, educativa, laboral, ambiental e de organização dos territórios.
Uma resposta eficaz exige, por isso, articulação entre saúde, educação, autarquias, proteção social, ambiente urbano, emprego, academia, ciência, inovação, setor privado, associações de pessoas com obesidade e sociedade civil.
Defendemos uma abordagem integrada, colaborativa e multissetorial, capaz de mobilizar diferentes competências, reduzir a fragmentação e criar respostas coordenadas, sustentáveis e orientadas para resultados.
A prevenção deve ser realista, próxima e adaptada às pessoas
A prevenção continua a ser essencial, mas não pode assentar exclusivamente em recomendações genéricas ou descontextualizadas da realidade das pessoas.
Promover alimentação saudável, atividade física e estilos de vida mais saudáveis exige compreender e enfrentar fatores como as desigualdades económicas, a pobreza, a falta de tempo, o isolamento social, as condições laborais, o acesso desigual a recursos e serviços e a forma como as cidades e comunidades estão organizadas.
As políticas públicas devem aproximar-se da vida real das pessoas e criar ambientes mais protetores e facilitadores ao longo de todo o ciclo de vida.
A escola, os locais de trabalho, as comunidades e os municípios devem assumir um papel central nesta transformação.
A literacia em saúde deve ser acessível, prática, contínua e adaptada aos diferentes contextos sociais e culturais.
Prevenir não é apenas informar. É criar condições para que escolhas mais saudáveis sejam possíveis e sustentáveis.
O acesso aos cuidados deve ser equitativo, integrado e multidisciplinar
As pessoas que vivem com obesidade devem ter acesso atempado e digno a cuidados integrados, baseados na evidência e adequados às suas necessidades.
Defendemos:
- O reforço dos cuidados de saúde primários enquanto primeiro nível de resposta e acompanhamento;
- A constituição de equipas multidisciplinares ou outros modelos colaborativos, ajustados aos recursos efetivamente existentes em cada região;
- A integração entre medicina geral e familiar, nutrição, psicologia, endocrinologia, cirurgia bariátrica e saúde pública;
- O reforço do papel dos médicos de Medicina Geral e Familiar na identificação, acompanhamento e referenciação das pessoas com obesidade;
- Modelos de acesso e prescrição que evitem a concentração excessiva da resposta nos núcleos hospitalares e a consequente pressão sobre as consultas de especialidade;
- A redução das listas de espera para diagnóstico, tratamento e acompanhamento da obesidade;
- A articulação efetiva entre os diferentes níveis de cuidados;
- Modelos de co-gestão e colaboração entre estruturas e profissionais;
- Maior articulação entre os setores público, social e privado, reconhecendo e mobilizando a capacidade instalada e os profissionais com competência nesta área.
O acesso aos cuidados deve ser determinado pelas necessidades da pessoa e não pelo local onde vive ou pela capacidade isolada de uma determinada instituição.
Precisamos de um sistema de saúde mais inteligente, integrado e próximo
A resposta à obesidade deve ser construída com base na melhor evidência científica disponível, na monitorização contínua e na avaliação de impacto.
A fragmentação da prestação, a perda de informação e a dificuldade em conhecer os recursos disponíveis comprometem a qualidade e a eficiência da resposta.
Defendemos um sistema de saúde que:
- Facilite a continuidade dos cuidados e a circulação de informação relevante;
- Permita conhecer de forma transparente os recursos, capacidades e respostas disponíveis;
- Aproxime os cuidados das pessoas;
- Reduza duplicações e descontinuidades;
- Facilite a articulação entre profissionais, instituições e níveis de cuidados;
- Utilize os dados para ajustar estratégias e melhorar resultados;
- Permita maior transparência perante profissionais, decisores e população.
A transformação digital deve estar ao serviço deste objetivo, contribuindo para um sistema mais integrado, responsivo e centrado nas necessidades das pessoas.
A equidade deve marcar todo o território
Persistem desigualdades territoriais significativas no acesso à prevenção, diagnóstico, referenciação e tratamento da obesidade.
O local onde uma pessoa vive não deve determinar a qualidade da resposta que recebe.
Defendemos:
- Maior alinhamento nacional;
- Redução da variabilidade entre ULS;
- Definição de indicadores comuns;
- Monitorização sistemática dos resultados;
- Partilha de boas práticas;
- Mecanismos de benchmarking;
- Transparência sobre recursos e resultados;
- Identificação e redução das desigualdades territoriais e sociais.
Uma estratégia nacional eficaz deve, simultaneamente, garantir princípios e padrões comuns e permitir a adaptação às diferentes realidades locais, sociais e demográficas.
As autarquias e os planos locais de saúde devem assumir um papel mais ativo na definição e operacionalização de respostas de proximidade.
Os dados e a evidência devem orientar a decisão
A resposta à obesidade deve ser construída com base na melhor evidência científica disponível, monitorização contínua e avaliação de impacto.
Os dados devem assumir um papel estruturante na definição estratégica, na governação, na monitorização de resultados, na identificação de desigualdades, na avaliação de políticas públicas e na melhoria contínua dos cuidados.
Defendemos sistemas de informação mais inteligentes, interoperáveis e orientados para resultados em saúde, incluindo soluções que permitam a recolha, integração e utilização adequada da informação clínica e o acompanhamento da pessoa ao longo do seu percurso de cuidados.
A disponibilização de informação relevante à população e aos diferentes intervenientes deve contribuir para maior transparência e para a capacidade de ajustar estratégias sempre que os resultados o justifiquem.
Sem objetivos claros, métricas adequadas, monitorização e capacidade analítica, não será possível construir respostas sustentadas, sustentáveis e equitativas.
Investigação, inovação, geração de conhecimento e evidência devem ser pilares da resposta
O combate à obesidade exige investimento sustentado em investigação fundamental, clínica, translacional e em serviços de saúde.
A produção contínua de conhecimento é essencial para compreender melhor os mecanismos da doença, identificar novos alvos terapêuticos, desenvolver estratégias inovadoras de prevenção e tratamento e avaliar a eficácia das políticas e intervenções implementadas.
Defendemos:
- Maior colaboração entre academia, sistema de saúde, decisores, associações de pessoas com obesidade e setor privado;
- Reforço da investigação orientada para a implementação;
- Maior transferência do conhecimento científico para a prática clínica e para as políticas públicas;
- Avaliação sistemática do impacto das novas soluções e modelos de intervenção.
Investigação e inovação devem contribuir para transformar conhecimento em melhores resultados para as pessoas e para o sistema de saúde.
A inovação e a tecnologia devem estar ao serviço das pessoas
A inovação tecnológica oferece oportunidades relevantes para melhorar a prevenção, o diagnóstico, o acompanhamento e a gestão da obesidade.
Ferramentas digitais, monitorização remota, integração de dados, inteligência analítica e novos modelos organizacionais podem potenciar intervenções mais eficazes, personalizadas e próximas das pessoas.
A inovação deve, contudo, responder a necessidades concretas e ser avaliada pelo seu contributo para melhores resultados em saúde, maior acesso, proximidade e eficiência.
A tecnologia deve aumentar a capacidade de resposta do sistema — nunca substituir a dimensão humana dos cuidados.
A obesidade deve ser assumida como prioridade de saúde, económica e social
Investir na prevenção e no tratamento da obesidade não representa apenas um custo para o sistema de saúde.
Representa uma oportunidade de reduzir a carga de doença, melhorar a qualidade de vida, aumentar a produtividade, reduzir desigualdades, contribuir para a sustentabilidade do SNS e gerar valor económico e social.
As decisões sobre prevenção, tratamento e acesso às intervenções disponíveis devem considerar, de forma rigorosa, o impacto clínico, social e económico da obesidade e das diferentes respostas possíveis.
Uma política para a obesidade deve ser também uma política de investimento em saúde, produtividade e sustentabilidade.
Enfrentar este desafio exige compromisso nacional, estabilidade estratégica e responsabilização partilhada.
Precisamos de uma visão de longo prazo que ultrapasse ciclos governativos e calendários políticos.
As pessoas devem estar no centro das decisões
Nenhuma estratégia será verdadeiramente eficaz sem ouvir quem vive diariamente com obesidade.
A voz das pessoas deve estar presente na definição das políticas, no desenho dos modelos assistenciais, na avaliação dos resultados e na definição das prioridades de intervenção.
É fundamental combater o estigma, promover a dignidade e garantir que as respostas são construídas a partir das necessidades reais das pessoas.
Uma política de saúde centrada na pessoa deve reconhecer a complexidade da obesidade e evitar abordagens simplistas que responsabilizem individualmente quem vive com a doença.
Colocar as pessoas no centro significa ouvi-las, respeitá-las e envolvê-las nas decisões que determinam a resposta à doença.
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