Portugal ganhou anos de vida, mas ainda não garantiu que esses anos sejam vividos com qualidade, autonomia e participação. Foi esta tensão que atravessou o Lisbon Health Talks, realizado no dia 21 de maio, numa iniciativa do Fórum Saúde XXI, em parceria com a Universidade Europeia.
A conferência de abertura esteve a cargo do Professor Alexandre Quintanilha, que apresentou uma intervenção com um título tão inesperado quanto desafiante: “O elogio do tempo mais longo e lento”.
Num evento dedicado à saúde, à inovação e ao futuro, a ideia de elogiar a lentidão poderia parecer contraditória. No entanto, foi precisamente nesse ponto que residiu a força da sua mensagem. Para Alexandre Quintanilha, os grandes desafios da sociedade, entre os quais se destaca o envelhecimento, não encontram resposta em soluções imediatas, fórmulas simplificadas ou certezas apresentadas como definitivas. Pelo contrário, exigem dúvida, curiosidade, pensamento crítico e tempo.
Ao longo da sua intervenção, recordou que o conhecimento começa quase sempre com uma pergunta. A curiosidade abre caminho à imaginação, a imaginação conduz à procura de evidência e, só mais tarde, pode surgir a inovação.
Esta reflexão ganhou particular relevância num encontro centrado na longevidade. Portugal, tal como muitos países europeus, enfrenta uma profunda transformação demográfica. A esperança média de vida aumentou de forma expressiva, as pirâmides populacionais inverteram-se e a sociedade é hoje chamada a responder a novas necessidades de saúde, cuidado, prevenção, inclusão e participação social.
Contudo, viver mais não significa, por si só, viver melhor. Esta foi uma das ideias que atravessou a conferência e marcou o tom do Lisbon Health Talks.
O envelhecimento não deve ser visto apenas como uma questão biológica, médica ou individual. Trata-se também de um fenómeno social, económico, político e cultural, influenciado por fatores como a genética, o estilo de vida, o sono, o stress, a solidão, o ambiente, o propósito, a participação na comunidade e o acesso aos cuidados de saúde.
Neste contexto, o título “O elogio do tempo mais longo e lento” funcionou como um alerta contra a pressa de anunciar soluções, transformar incertezas em certezas ou tratar a longevidade como uma tendência, um mercado ou uma promessa individual.
Durante o evento, foram abordados temas centrais para a saúde, incluindo a reforma dos sistemas de saúde para uma vida longeva, a prescrição social, a alteração do paradigma da medicina preventiva para a saúde pública de precisão e o impacto económico e social da longevidade.
Mais do que uma sucessão de intervenções, o encontro afirmou-se como uma plataforma de reflexão e aproximação entre áreas que nem sempre dialogam com a profundidade necessária. Para quem esteve presente, o Lisbon Health Talks mostrou que a longevidade não é apenas um tema de futuro, mas uma realidade que já está a transformar o presente.
Num país que precisa de reorganizar respostas para uma população que vai viver mais décadas, o evento demonstrou o valor de reunir diferentes vozes em torno da mesma agenda. A mensagem de Alexandre Quintanilha ficou como síntese do espírito do encontro: envelhecer bem não é apenas um projeto individual, mas um projeto de sociedade.







