Rui Cortes
Fundador da Lean Health Portugal e da Value Health Data
Qual é o recurso mais desperdiçado na saúde?
Não são equipamentos. Não são medicamentos. Não é sequer dinheiro, embora o dinheiro siga sempre o mesmo caminho do que for mais desperdiçado. É o tempo. E ao contrário de quase tudo o resto, o tempo não se recupera. Este artigo analisa porque a gestão do tempo na saúde é um problema estrutural e como medir o desperdício operacional.
Tempo perdido por médicos e enfermeiros: o impacto das tarefas administrativas
Estudos europeus, em contexto hospitalar estimam que entre 30% a 40% do tempo de um médico é consumido por tarefas administrativas: documentação, burocracia, sistemas de informação mal desenhados. Este desperdício de tempo afeta diretamente eficiência hospitalar, tempos de espera e custos operacionais.
No caso da enfermagem, a proporção é semelhante. Profissionais formados durante anos para cuidar de doentes passam uma parte substancial do seu dia a fazer aquilo para que não foram formados.
Do lado do doente, o retrato é igualmente difícil de ignorar. Em muitos sistemas de saúde, o tempo de contacto direto com o profissional representa uma fração mínima do tempo total que o doente passa no sistema, seja numa consulta, numa urgência ou num internamento. O resto é tempo de espera: espera por resultados, por transporte, por uma cama disponível, por uma decisão que alguém ainda não teve tempo de tomar.
O tempo não está a ser gerido. Está a ser consumido.
Duas formas diferentes de perder tempo: Tempo de espera nos serviços de saúde vs. tempo operacional desperdiçado
Vale a pena distinguir dois fenómenos que frequentemente se confundem. O primeiro, é o tempo de espera percebido pelo doente: filas, atrasos, consultas que não começam à hora marcada. Este é o mais visível e o que gera maior insatisfação. Mas é muitas vezes sintoma, não causa.
O segundo, é o tempo operacional desperdiçado internamente: o que não tem rosto nem reclamação formal, mas que é estruturalmente mais relevante. Blocos operatórios que iniciam com atraso sistemático. Doentes internados que aguardam alta por razões administrativas e não clínicas. Equipas que repetem tarefas porque a informação não circula entre serviços. Reuniões que substituem decisões em vez de as produzirem.
Este segundo tipo de desperdício é invisível, precisamente, porque ninguém o mede. E o que não se mede, não se melhora.
O problema não é a falta de tempo, é a forma como o tempo é estruturado
A resposta habitual ao problema do tempo na saúde é previsível: precisamos de mais profissionais, mais horas, mais turnos. A lógica da adição, que já discutimos no artigo anterior.
Mas a evidência aponta noutra direção. Sistemas com recursos semelhantes apresentam desempenhos operacionais radicalmente diferentes: não porque têm mais pessoas, mas porque estruturam o tempo de forma diferente. Definem com clareza o que acontece quando, quem decide o quê, e como a informação flui entre etapas.
O tempo não é apenas uma variável de gestão. É um indicador de qualidade do desenho organizacional. Um sistema bem desenhado respeita o tempo dos profissionais e dos doentes. Um sistema mal desenhado consome-o sem produzir valor equivalente.
O desenho de procedimentos é condição necessária, mas não suficiente, para assegurar processos efetivos e eficientes! Sem processos em saúde bem desenhados, o tempo perde-se em tarefas repetidas, decisões atrasadas e fluxos mal definidos.
O que está por fazer: como medir o tempo na saúde
Medir o tempo na saúde é o primeiro passo para melhorar eficiência e reduzir desperdício operacional. A maioria das organizações de saúde não sabe, com rigor, onde vai o tempo. Não, porque não se importam, mas porque nunca construíram os mecanismos para o medir. E sem medição, não há diagnóstico. Sem diagnóstico, qualquer intervenção é intuição com orçamento.
O ponto de partida não é tecnológico. É analítico. Mapear o que acontece realmente — não o que está escrito nos procedimentos, mas o que acontece no terreno, todos os dias. Só depois, faz sentido perguntar o que pode ser eliminado, simplificado ou automatizado. Tecnologia aplicada a um processo disfuncional não resolve o problema. Acelera a ineficiência.
Se medisse hoje, onde é gasto o tempo na sua organização (o tempo dos profissionais, o tempo dos doentes, o tempo perdido entre etapas) o que encontraria? E estaria preparado para o que fosse encontrar?
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