Dr. Rufino Silva
Prof. da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
Imagine entrar num consultório médico e, em vez de um especialista analisar demoradamente uma imagem do fundo do olho, um computador, em segundos, fornece um diagnóstico preciso, avalia o risco de progressão da doença e sugere ao seu médico Oftalmologista um possível plano de tratamento. Esta não é uma visão distante do futuro, mas uma realidade em construção acelerada, graças à Inteligência Artificial (IA).
Nos últimos anos, a aplicação da IA na medicina tem vindo a crescer exponencialmente e poucas áreas têm beneficiado tanto como a Oftalmologia. Do rastreio à monitorização de doenças como a retinopatia diabética, a degenerescência macular relacionada com a idade (DMRI), o glaucoma e a retinopatia da prematuridade, a tecnologia está a ganhar um papel de destaque no apoio ao diagnóstico e na personalização dos cuidados de saúde visual.
Mas afinal, como funciona esta tecnologia? E que mudanças pode trazer à forma como cuidamos da nossa visão?
O que é Inteligência Artificial?
A Inteligência Artificial é um ramo da informática que procura imitar a capacidade humana de raciocinar, aprender com a experiência e tomar decisões. Em vez de serem programados com instruções rígidas, os sistemas de IA “aprendem” com grandes volumes de dados (como milhões de imagens médicas) para reconhecer padrões e prever resultados.
Na prática, isto significa que um computador pode aprender a distinguir um olho saudável de um com sinais precoces de doença, com uma precisão muitas vezes comparável à de um médico experiente. Esta aprendizagem é possível através de métodos como o “deep learning” (aprendizagem profunda), onde redes neuronais artificiais, inspiradas no cérebro humano, são treinadas para detetar alterações subtis nas imagens.
Uma resposta à escassez de especialistas
Um dos grandes desafios da saúde ocular global é a escassez de oftalmologistas, sobretudo em zonas remotas ou com recursos limitados. Em muitos países, o número de profissionais não é suficiente para responder às necessidades da população, o que leva a atrasos no diagnóstico e tratamento de doenças capazes de provocar cegueira.
A IA pode ajudar a colmatar essa lacuna. Por exemplo, dispositivos equipados com algoritmos inteligentes conseguem analisar fotografias da retina e indicar se há sinais de doenças como a retinopatia diabética, uma das principais causas de cegueira em adultos. Esta triagem automática permite que apenas os casos suspeitos sejam encaminhados para avaliação médica, poupando tempo e recursos.
Resultados promissores: retinopatia diabética
Os estudos mais recentes são animadores. Um sistema aprovado nos EUA pela agência reguladora FDA, por exemplo, consegue detetar a retinopatia diabética com mais de 90% de sensibilidade e especificidade, valores comparáveis aos dos especialistas humanos. A diabetes é uma epidemia silenciosa que afeta mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Uma das suas complicações mais graves é a retinopatia diabética, que pode levar à cegueira se não for detetada precocemente.
A boa notícia é que esta doença pode ser identificada através de uma simples fotografia do fundo do olho. E é aqui que a IA entra em cena: sistemas como o EyeArt ou o Retmarker (este desenvolvido em Portugal, mais concretamente em Coimbra) analisam estas imagens em segundos, com elevada fiabilidade, e classificam o risco do paciente. Alguns destes sistemas estão já a ser usados em programas de rastreio em larga escala, inclusive em Portugal.
Degenerescência macular: olhar para o futuro
A degenerescência macular associada à idade (DMI) é outra das causas mais comuns de perda de visão após os 60 anos. À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de diagnósticos rápidos e eficientes. Sistemas de IA têm vindo a ser treinados para identificar alterações na retina tais como drusen (depósitos amarelos na retina), atrofia do epitélio pigmentado ou a presença de fluido que são sinais da doença em diferentes estádios de gravidade. Estes algoritmos usam imagens de retinografia e tomografia de coerência óptica (OCT) e tornam possível a implementação de medidas de prevenção e tratamento precoce da DMI.
Glaucoma: detetar antes de perder a visão
O glaucoma é conhecido como o “ladrão silencioso da visão” porque pode evoluir sem sintomas até fases avançadas. A IA tem-se mostrado promissora no rastreio precoce, através da análise de parâmetros como a escavação do nervo óptico e a espessura da camada de fibras nervosas. Modelos desenvolvidos em países asiáticos, com base em mais de 100 mil imagens, já conseguem detetar suspeitas de glaucoma com mais de 95% de precisão, contribuindo para diagnósticos mais precoces e menor risco de cegueira.
Retinopatia da prematuridade: proteger os mais pequenos
Nos bebés prematuros, a imaturidade dos vasos da retina pode levar a uma condição grave chamada retinopatia da prematuridade (ROP). A deteção precoce é crucial, mas nem sempre é fácil ter especialistas disponíveis nas unidades neonatais. Sistemas de IA como o i-ROP DL analisam imagens obtidas com câmaras especiais e identificam os graus de gravidade da doença com resultados comparáveis aos de especialistas. Em estudos recentes, a precisão destes sistemas ultrapassou os 90%, mostrando-se uma ferramenta promissora para hospitais de todo o mundo.
Limites e desafios éticos
Apesar dos avanços, é importante reconhecer que a IA não é perfeita nem deve substituir o médico. Os algoritmos funcionam bem quando treinados com grandes volumes de dados de boa qualidade, mas podem falhar em situações raras ou atípicas. Há também preocupações legítimas com a privacidade dos dados dos pacientes, o risco de viés algorítmico e a falta de transparência em certos modelos (a chamada caixa negra).
Além disso, a IA não substitui o julgamento clínico, nem considera fatores sociais, emocionais ou culturais que muitas vezes influenciam o cuidado ao doente.
O futuro é colaborativo
A melhor forma de integrar a IA na medicina é através de uma parceria entre humanos e máquinas. A tecnologia pode libertar os médicos de tarefas repetitivas, aumentar a eficiência dos sistemas de saúde e reduzir desigualdades no acesso aos cuidados, mas sempre com supervisão humana.
A Inteligência Artificial está a transformar a forma como vemos, literalmente. Ao potenciar diagnósticos mais precoces, mais rápidos e mais acessíveis, abre caminho a uma Oftalmologia mais justa, eficiente e personalizada. Ainda há desafios pela frente, mas o horizonte é promissor. Afinal, se os olhos são o espelho da alma, talvez a IA seja o espelho de uma medicina mais humana, precisa e inclusiva, mas que não exclui a supervisão humana nem substitui o julgamento clínico.
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