Investir em Saúde ou em Cuidados de Saúde?

Investir em Saúde ou em Cuidados de Saúde?

Pedro Serra Pinto – Membro Executivo do Fórum Saúde Século XXI – artigo publicado no Observador em 2 de Setembro de 2021

Saúde e cuidados de saúde são coisas muito diferentes. O conceito de saúde, mais do que a ausência de doença, representa uma situação de completo bem-estar físico, psíquico e social, já os cuidados de saúde são o sistema que nos permite recuperar a saúde quando estamos doentes.

A confusão que frequentemente fazemos entre estes dois conceitos é talvez a principal razão para as elevadas despesas em saúde do Estado e das famílias.

Os cuidados de saúde são o nosso último recurso — são eles que nos ajudam a recuperar a saúde quando estamos doentes. Mas se confiarmos apenas na medicina, nunca seremos verdadeiramente saudáveis.

É preciso mudar a forma como pensamos a saúde; provavelmente teremos de concentrar 2/3 dos nossos esforços e recursos na prevenção e apenas 1/3 na prestação de cuidados.

Mais do que cuidados médicos, a saúde depende das políticas que influenciam o mundo à nossa volta. Habitação, transportes, qualidade do ar e da água e um rendimento mínimo condigno, são determinantes essenciais para a saúde e o bem-estar dos indivíduos e das comunidades em que se inserem.

Quando pensamos na doença numa perspetiva estritamente fisiológica, estamos muitas das vezes a ignorar a raiz dos problemas.

Pensemos no caso do António (nome fictício), que hoje é suturado na cabeça em consequência de uma queda na via pública e que passado um ano é internado com uma cirrose hepática.

À primeira vista os cuidados de saúde foram eficazes e resolveram a situação que o levou aos serviços de urgência. Porém, ignoraram a raiz do problema, que na verdade é o alcoolismo.

Ou seja, o verdadeiro problema do António é o alcoolismo; a queda é apenas uma consequência!

Todavia, os serviços e os profissionais de saúde que o assistiram sentem que cumpriram eficazmente a missão de que estão incumbidos.

Outro exemplo é o de Catarina, (nome e quadro clínico fictício), que com 39 dois anos de idade é obesa, sofre de uma osteoartrite do joelho direito e é asmática.

Quando é vista pela médica de família, esta prescreve-lhe um medicamento para a asma, um anti-inflamatório para a artrite do joelho e recomenda-lhe que perca peso, sugerindo-lhe ainda uma dieta alimentar e um plano de exercício físico adequado. Mais tarde referencia-a para uma consulta de ortopedia tendo em vista a colocação de uma prótese no joelho.

Não há nada de errado no tratamento recomendado. Estamos perante uma prestação de cuidados de saúde correta e adequada.

Todavia, ignora uma questão fundamental. Por que razão Catarina, com apenas 39 anos de idade tem estes problemas de saúde?

A resposta reside nas circunstâncias da vida de Catarina. Filha de mãe solteira com vários empregos para poder sustentar a família, Catarina teve uma alimentação pouco saudável durante a infância e a adolescência, o que contribuiu para se tornar obesa ainda jovem. A sua artrite no joelho, resultado do excesso de peso, agravou-se pelo facto de ter uma atividade profissional sedentária. A asma, deve-a provavelmente à poluição do bairro industrial onde cresceu.

Estes dois exemplos servem para ilustrar o seguinte: podemos continuar a tratar a Catarina e o António e a gastar cada vez mais dinheiro nos cuidados de saúde, mas até passarmos a investir num “mundo” que promova, incentive e suporte a saúde, vamos continuar a gastar cada vez mais dinheiro sem resultados visíveis para a saúde.

Para enfrentar os desafios do envelhecimento ativo e os crescentes custos dos cuidados de saúde, precisamos de dedicar mais atenção à prevenção.

A saúde deve estar presente em todas as políticas públicas. Quando se tomam decisões de investimento público, como por exemplo a construção de um novo aeroporto, não basta um estudo de impacto ambiental. Deveria ser obrigatório um estudo de avaliação do impacto na saúde pública da população.

Quando uma câmara municipal, no âmbito da sua política de mobilidade urbana disponibiliza um serviço de trotinetes elétricas, deveria ter em consideração o respetivo impacto na saúde e nos cuidados de saúde, porque o que à primeira vista parece ser uma boa ideia (diminuir o número de automóveis nos centros urbanos), tem efeitos negativos para saúde e para os cuidados de saúde. Além de não promover a prática de exercício físico, a trotinete contribui para o aumento do número de acidentes e por essa via para o aumento dos gastos em cuidados de saúde.

Uma política de mobilidade que tivesse em conta não só o fator ambiental como também o fator saúde, provavelmente teria apostado na oferta de um serviço de bicicletas elétricas em detrimento das trotinetes.

Estes dois exemplos de decisões políticas, uma ao nível central e outra ao nível local, servem apenas para ilustrar como a saúde é desvalorizada e até ignorada perante interesses de ordem económica e ideológica

Se queremos um novo paradigma centrado na saúde e não nos cuidados de saúde, precisamos de avaliar as decisões políticas à luz do seu impacto na saúde e não apenas no ambiente e na economia.

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