Inovação em Medicina – muito mais que necessário é decisiva

Inovação em Medicina – muito mais que necessário é decisiva.

Luís Cunha Miranda

Sabemos que a inovação no geral representa a transformação de conceitos, produtos ou formas de organização tendo em conta encontrar soluções para problemas que estão sem solução ou cuja solução pode ser melhorada ou transformada.
Na área da medicina a inovação representa avanços civilizacionais importantes que implicam melhoria da esperança de vida mas igualmente na qualidade de vida de doentes e seus familiares.

Podemos falar em inovação em medicina quer na utilização de novas terapêuticas (sejam medicamentos ou dispositivos médicos) ou meios complementares de diagnóstico, mas igualmente na melhoria ou alteração de processos ou ainda na investigação médica seja ela clínica ou translacional.

Em Portugal muito deve ser discutido e implementado no que diz respeito á acessibilidade à inovação em termos de novos medicamentos ou dispositivos médicos. A gestão em medicina não pode ser significado de cortes sem critério ou decisões baseadas em pressão da opinião pública. Se nos últimos anos vimos a aposta de forma muito intensa em genéricos iremos assistir seguramente igual aposta em biossimilares. Tal como medida de boa gestão deve ser louvada e apoiada desde que dois pressupostos sejam garantidos. A prescrição e a escolha deve manter-se na esfera do médico e do doente, e a introdução desta estratégia não pode bloquear o acesso á inovação terapêutica. Não podemos de forma cega transformar Portugal num país do 1.5 Mundo (entre o 1º e o segundo mundo) em que profissionais, do mais competente que existe, sejam limitados na sua prática clínica, muitas vezes sem redução de custos, e com isso prejudicando de forma muito significativa o doente.

Assim os médicos têm novamente de assumir o seu papel de defensor da melhor prática clínica, que é manifestamente diferente de NOCs e orientações, e lutar cientificamente pelo melhor tratamento e o mais indicado para o doente particular. Tal é compatível com redução de custos e com otimização de recursos. Para tal temos tal como exemplos existentes em Portugal em diversas doenças e especialidades de criar registos nacionais, geridos independentemente pelas sociedades científicas, que permitam avaliar em vida real as inovações que nos são propostas.
Mas também devemos ser críticos da inovação que muitas das vezes não corresponde a tal, e que a verdadeira aposta deverá, num país com recursos limitados, ser alocada aos fármacos e dispositivos que tragam uma mais-valia significativa para a sociedade.

Diversas formas de avaliação da inovação existem por toda a Europa e em Portugal o aparecimento do SINATS em 2015 pode representar uma via diferente do existente anteriormente na avaliação dessa mesma inovação. Contudo a transparência de se saber publicamente como foi feita a avaliação, quem a fez e qual o resultado deveria ser a regra base. Para além disso a colaboração do SINATS com as sociedades científicas e associações de doentes deve ser real e permanente, nomeadamente para a obtenção de dados de vida real (através dos registos nacionais) que podem validar de forma mais concreta e objetiva a qualidade dessa mesma inovação. Não podemos viver em secretismo acerca de como se avalia a entrada de um fármaco, MCTD ou dispositivo médico, e a sua comparticipação ou introdução no mercado. Tal percurso do medicamento não pode ser feita baseada na pressão de grupos ou por uma conjuntura política particular. Os ministros da saúde são para 4 anos mas o sistema deveria ser projetado e planeado a bem mais do que isso.
Necessitamos de reflexão e de discussão, isenta e desapaixonada acerca das prioridades e da forma como estas são feitas. A aposta vai para o HIV, as Hepatites, a Oncologia, a diabetes ou as doenças reumáticas? Qual a razão e o fundamento para a decisão? O número de doentes? Os custos económicos da doença? O custo efetividade das terapêuticas, ou a pressão feita por grupos organizados, pela imprensa etc. Cada médico terá como prioridade a sua especialidade e doentes mas nós todos enquanto sociedade, sabendo da escassez de recursos, o que devemos fazer para melhorar a saúde dum país que dentro em breve será um dos mais envelhecidos da Europa?

Assim devemos parar para refletir se queremos um país dos genéricos, dos biossimilares e da escolha pelo mais barato ou se por outro lado tendo em conta o custo e o equilíbrio e sustentabilidade do SNS podemos ter acesso à inovação verdadeira, para o doente que melhor dela beneficia e cujo seguimento e avaliação é feita de acordo com padrões de excelência.

Mas devemos igualmente refletir o papel dos médicos, da ordem dos médicos, das sociedades científicas na investigação clínica, na sua valorização e apoio. Quem mais e melhor investiga melhor trata dos seus doentes. Essa realidade deve ser apoiada e valorizada por todos, integrando-a no horário de trabalho ou sendo complementar ter um enquadramento laboral e de evolução de carreira.

No fundo o objetivo final será trazer Portugal para um primeiro mundo em termos de acessibilidade à inovação que deverá ser feita de forma muito estruturada, com a colaboração de todos, tendo como foco a verdadeira inovação, avaliada de forma isenta e transparente. São os médicos e os doentes aqueles que melhor aproveitam a inovação e que a conseguem avaliar, cabe aos políticos numa discussão pública e livre de preconceitos ou vieses discutir quais as prioridades e de que forma tais prioridades são definidas e avaliadas. Temos todas as condições para fazer mais e melhor se todos tivermos cientes das nossas responsabilidades e em conjunto possamos construir um SNS mais inovador, mais equitativo e acessível para todos.

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